Histórico

Palacete Augusto Montenegro: a casa dos homens de ontem, para os homens de hoje e de amanhã.


O Museu da Universidade Federal do Pará, o único museu federal de artes visuais da Amazônia, vem desde 2003 se reestruturando para melhor guardar e avivar a memória de si e do outro. O prédio que abriga esse museu é uma construção do início do século XX, mas precisamente de 1903, conhecido como palacete Augusto Montenegro, foi projetado pelo arquiteto italiano Filinto Santoro para ser a residência particular do então Governador do Estado do Pará, Augusto Montenegro. Este arquiteto que viveu no início do século XX em Belém, era formado pela Academia de Nápoles. Para o projeto, Santoro buscou informações no estilo arquitetônico renascentista italiano, bem como parte dos materiais utilizados na construção do prédio e sua mão de obra era oriunda da Itália. Lugui Bisi foi o mestre de obras e construtor do prédio.

O Palacete é uma construção em alvenaria e ferro de estilo eclético que reflete em sua composição a riqueza e ostentação da Belle Époque paraense dos períodos áureos da extração da borracha na Amazônia. Foi quase todo construído com materiais importados da Itália devido às relações comerciais que Santoro mantivera com seu país. Forros prensados e pintados possivelmente de origem Belga, mosaicos genoveses no piso de entrada, portas em madeira de lei, imitação de mármore nas colunas e presença da flor de lis nas pinturas decorativas internas e vidros da casa são umas das mais variadas marcas da arquitetura do palacete Augusto Montenegro.

Projeto e construção encomendados pelo próprio Augusto Montenegro ao arquiteto Santoro, este chefe do Executivo paraense também fazia do palacete seu gabinete de despachos, pois no período não existia residência oficial nem palácio dos despachos do Governador do Pará. Era considerada uma residência pequena para os padrões da época, sendo que o porão da casa, construído em pedra, abrigava a guarda oficial do Governador; no primeiro pavimento foi instalado o gabinete de Montenegro e gabinete de sua Assessoria, além de dois salões sociais para recepção de convidados, copa, cozinha e sala de jantar; o segundo e último pavimento era reservado somente as acomodações da família: Montenegro, a esposa e o filho, sendo que um quarto pequeno provavelmente era destinado a abrigar a ama, e um outro menor possivelmente destinado a orações. Montenegro morou no palacete até 1909 decidindo vender a residência e morar com a família na Europa. Até o início dos anos 60 o palacete serviu de residência de algumas famílias de nomes tradicionais na cidade de Belém: Cardoso, Faciola e Chamié.

Em 1962, na gestão do então Exmo. Reitor José Rodrigues da Silveira Netto, a Universidade Federal do Pará compra o palacete Augusto Montenegro e instala no prédio a reitoria dessa instituição de ensino. A casa passa por várias modificações internas quando deixa de ser moradia passando a ser um prédio de instituição pública. Neste período, as pinturas originais começam a desaparecer, sendo cobertas com camadas de tinta branca. Em 1983, com a construção do Campus Universitário no bairro do Guamá, a sede da reitoria da UFPA muda-se e, neste mesmo ano, é instalado o Museu de Arte da UFPA – MUFPA – no palacete Augusto Montenegro.

Durante um longo período entre os anos 1990 e início dos anos 2000 o palacete sofreu inúmeras perdas em sua arquitetura por falta de recursos financeiros a sua manutenção. O museu neste período já se encontrava em péssimas condições de conservação. Em 2003 o palacete Augusto Montenegro é tombado pelo Governo do Estado do Pará enquanto Patrimônio Histórico e, no mesmo ano, assume enquanto diretora do MUFPA a professora e arquiteta Jussara Derenji.

O projeto das obras de restauração e revitalização do museu começou em julho de 2004, e tais serviços terminaram em junho de 2009, seguindo as normas internacionais de restauro e tendo como principais objetivos na restauração resgatar e preservar ao máximo as características originais artísticas e arquitetônicas do prédio, bem como adaptar suas instalações a formatos museológicos transformando o museu num campo de estudo e de aprendizado. Durante esse processo as cores originais da fachada do prédio foram restabelecidas, e os restauradores encontraram até 12 camadas de tintas sobre a pintura parietal interna original. Segundo a professora Jussra Derenji: “O princípio norteador da proposta de reforma dos espaços expositivos do Museu, elaborada em 2003, era promover o retorno ao estado original do prédio, dentro dos limites impostos em reformas anteriores, que haviam eliminado revestimentos, pinturas e elementos originais da casa”.

A restauração do Palacete Augusto Montenegro foi baseada nas recomendações da Carta de Veneza proporcionando que a história do prédio fosse novamente relatada, bem como as intervenções sofridas pela casa pudessem manter essas referências. A Carta Patrimonial é um importante documento internacional sobre conservação e restauração de monumentos, prédios e sítios. Este documento defende que as intervenções realizadas procurem contribuir para os remanescentes históricos presentes nas edificações restauradas. Segundo a Carta de Veneza, “Os acréscimos só poderão ser tolerados na medida em que respeitarem todas as partes interessantes do edifício, seu esquema tradicional, o equilíbrio de sua composição e suas relações com meio ambiente”. Baseado nesses pressupostos percebe que a fachada do palacete foi totalmente mantida restabelecendo através de prospecção a cores originais e pinturas do prédio. Portas e janelas foram abertas, esquadrias refeitas, forros restaurados e reintegrados, pinturas decorativas internas encontradas e revitalizadas. Todo esse processo foi realizado preocupando-se com o acesso e fruição do público durante os eventos museológicos no prédio.

O novo funcionamento do Museu da Universidade Federal do Pará consiste em áreas expositivas no primeiro e segundo andar do prédio, bem como no porão onde abriga a biblioteca do museu que possui um vasto acervo bibliográfico de arte, cultura popular, partituras, cartuns, uma hemeroteca, além da coleção Vicente Salles. No primeiro pavimento do prédio foram criadas duas salas dedicadas a Memória da UFPA onde estão exposto livros, comendas, fotos, documentos que contam parte da história da instituição. Em comemoração aos 50 anos de fundação da Universidade Federal do Pará, em 22 de junho de 2009, o MUFPA totalmente restaurado, abre suas portas com duas exposições: “Memória Contemporânea” – uma retrospectiva sobre grandes eventos acontecidos no museu da UFPA – e “Amazônia Plural” – 25 gravuras de artistas nacionais e latino-americanos doadas ao museu pela Fundação Bozano Simonsen.

Hoje, o acervo do Museu da Universidade Federal do Pará é composto por pinturas, desenhos, cartuns, fotografias, gravuras e esculturas dos séculos XIX, XX e XXI, acervo este formado ao longo dos anos por meio de doações, permutas e aquisições. É a partir desses acervos de arte, de seu prédio, seus bens integrados, bem como através de exposições de variados artistas locais, nacionais, internacionais e de colecionadores particulares que o museu vem a alguns anos desenvolvendo suas atividades de Arte/Educação procurando estabelecer um diálogo vivo e respeitoso com os diferentes públicos que visita-o, levando a estes conhecimentos variados através de oficinas, seminários, palestras, vistas guiadas, multimídias etc.

O projeto de ação sócio-educativa realizado no Museu da Universidade Federal do Pará tem como finalidade contextualizar seus acervos de arte e o secular palacete Augusto Montenegro através de sua arquitetura e seus bens integrados, bem como seu entorno no bairro de Nazaré, como espaços de conhecimentos destinados à preservação e resguardo de parte da memória moderna e contemporânea do homem, patrimônio artístico-cultural público indispensável à sociedade. O setor de Arte/Educação do Museu disponibilizada serviços de visitas guiadas, leituras de obras de arte, vídeos, oficinas, conversas com artistas, seminários ligados as mais variadas linguagens artísticas paraense, nacional e internacional.

Paulo Souza

Mestrando em Artes/UFPA/2010.

Coordenador do setor de Arte/Educação do MUFPA.

Fonte:

Jornal Beira do Rio. Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano VI Nº 62. Belém, junho/julho, 2008.

Jornal do Museu da UFPA. Ano II nº 06 – Belém, 2006.

http:// www.portal.ufpa.br/imprens. php?cod

http://www.portalcultura.com.br

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s