Comentários de Carlos Maneschy, Rômulo José Ferreira Nunes e Jussara Derenji :Coleção C.C.J (Retratos de Direito)

Ao inaugurar a exposição Retratos de Direito, o Museu da Universidade Federal do Pará, mais uma vez, recupera signifcativa parcela de nossa memória, agora trazendo a público 24 obras do acervo da antiga Faculdade de  Direito, uma das mais tradicionais instituições da Amazônia. É importante ressaltar que o trabalho foi possível graças à parceria entre o Museu e o Tribunal de Justiça do Estado, contando com a colaboração da sociedade através da Associação dos Amigos do Museu da UFPA.  Essa exemplar união de esforços possibilitou que fossem restaurados os retratos de juristas de reconhecida  importância para a história das duas instituições, restauro que também é contemplado no projeto da exposição. Por último, mas não menos importante, a mostra permite o contato com a técnica dos autores dos retratos, ampliando ainda mais o mérito da iniciativa, que enriquece nossa cultura ao resgatar a memória.
Carlos Maneschy
Reitor da Universidade Federal do Pará

A exposição “Retratos de Direito” passa a integrar o contexto das iniciativas em que a importância da justiça e a contribuição dos seus operadores para sua efetivação assumem a relevância que lhes é devida nos diferentes extratos sociais. Nela se inserem personalidades que inscreveram seus nomes nos avanços e conquistas do povo brasileiro, em particular do Estado do Pará, em capítulos marcados pela sabedoria e experiência de cada personagem, perenizados e reescritos através dos tempos, pelas ações, decisões, referidos no respeito e fortalecimento dos princípios basilares da cidadania.

Há, assim, razões especiais e particulares para que o Poder Judiciário paraense saúde e participe desta realização, em que avultam, entre tantos ilustres expressões do Direito e da Justiça em nosso Estado, cinco dos eminentes magistrados que exerceram a presidência do Tribunal de Justiça paraense. Suas Excelências legaram à magistratura, aos concidadãos e ao Pará seus preciosos exemplos de cultura jurídica e dignidade funcional, contribuindo, assim, para que a trajetória secular do TJE esteja inserida dentre as mais prestigiosas e conceituadas do país.

Desembargador Rômulo José Ferreira Nunes
Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Pará

O retrato pictórico começa a perder espaço no Brasil moderno da metade do século XIX em diante, época em que é introduzida a fotografia no país.
Lemos (1983) cita o caso do pintor Louis Aléxis Boulanger, ativo no Rio de Janeiro entre 1840-56, que pinta nesse período mais de mil e quinhentos retratos. No Pará, nesta mesma fase, a pintura, inclusive a de retratos da burguesia emergente, é um gênero praticado por estrangeiros, a maioria italianos ligados à Academia romana de San Lucca, e também por artistas locais com estudos no exterior como Carlos Custódio ou Constantino Chaves da Mota.  A introdução da fotografia iria mudar radicalmente esta situação. Na região norte que passa por fase de grande prosperidade econômica, de 1860 a 1911, logo surgem, com maior incidência em Belém, estúdios fotográficos que dentre suas crescentes atividades, popularizam o hábito, trazido da Europa, das carte de visite com as fotos sendo usadas em lugar dos cartões tradicionais, depois seguidas pelas cabinet portrait, de dimensão um pouco maior. O Instituto Histórico e geográfico do Pará possui, talvez a maior coleção destas apreciadas formas de apresentação e representação social no fim do século XIX. A fotografia como retrato procura, ainda no inicio do século XX, sintetizar a personalidade do retratado e constrói ambiências, cenários, nos quais arranjos compensatórios podem disfarçar alturas, defeitos ou características físicas indesejáveis, artifícios sobejamente conhecidos na pintura de mesmo gênero. O retratado é fixado na pose e nas roupas que mais o favorecem e o cenário é construído com as referencias necessárias ao entendimento da importância do personagem com emblemas de mando, marcos de posições polítcas, convicções religiosas ou situação na família.
O Retratos de Direito   ‘A Coleção da Faculdade de Direito, que o Museu da Universidade Federal expõe pela primeira vez após sua restauração no ano de 2005, situa-se nos parâmetros acima descritos de forma bastante peculiar. Seus primeiros retratos, das décadas de 10 e 20, são de um período em que a fotografia tornara-se corriqueira nas grandes cidades que, como era o caso de Belém, contavam com estúdios afamados desta nova forma de apresentação pessoal ou profissional. São da mesma fase, é interessante notar, os retratos pintados por artistas modernistas como Anita Malfat e Tarsila do Amaral, na mesma década de 20, confrontando tendência totalmente oposta. Nas fotos ainda que se perceba uma maior liberdade compositva, predominam os padrões representativos do século anterior, na obra dos artistas modernistas a influencia das novas tendências da arte européia apontam caminhos totalmente diversos. Escolher a pintura, numa fase em que a
fotografa já domina a cena, demonstra apego aos valores tradicionais mas, por outro lado, a escolha de alguns dos artistas indica mudanças modernizadoras contidas pela convencionalidade da proposta acadêmica. Os retratos do Curso de Direito, curso que antecede a fundação da Universidade no Pará, se situam assim num árduo limite para os artistas.
A pose fixa e quase imutável, a indumentária idêntica, as dimensões, até mesmo a moldura igual, tornam-se um desafio cujos resultados esta mostra hoje traz à discussão.  Restaurados pelo Tribunal de justiça do Estado do Pará os retratos tem várias leituras possíveis e todas instigantes. Representam pictoricamente os maiores juristas do século XX na região e podem ser vistos como os usuais retratos acadêmicos de homens públicos, justficando-se assim a introdução de presidentes da república ou juristas respeitados como Ruy Barbosa, o único que mereceria uma dimensão diferenciada e uma pose realçando a sua posição intelectual. São, por outro lado não menos importante do ponto de vista da representatividade social, retratos de personagens ainda reconhecíveis pelos vínculos familiares que persistem e assim podem ser vistos como antepassados recentes de membros atuantes na política, na vida acadêmica e social da atualidade. Outra leitura possível, e que rege a disposição física da atual mostra, é a de vê-los como obras de alguns dos mais importantes artistas do século XX no Pará: na fase inicial Theodoro Braga, Irineu, Manoel Pastana, e nos anos 50 Arthur Frazão.

Jussara da Silveira Derenji
Diretora do Museu da UFPA e Curadora da mostra


Sobre MUFPA

O Museu da Universidade Federal do Pará, o único museu federal de artes visuais da Amazônia, vem desde 2003 se reestruturando para melhor guardar e avivar a memória de si e do outro. O prédio que abriga esse museu é uma construção do início do século XX, mas precisamente de 1903, conhecido como palacete Augusto Montenegro, foi projetado pelo arquiteto italiano Filinto Santoro para ser a residência particular do então Governador do Estado do Pará, Augusto Montenegro. Este arquiteto que viveu no início do século XX em Belém, era formado pela Academia de Nápoles. Para o projeto, Santoro buscou informações no estilo arquitetônico renascentista italiano, bem como parte dos materiais utilizados na construção do prédio e sua mão de obra era oriunda da Itália. Lugui Bisi foi o mestre de obras e construtor do prédio.
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